Até que comece o diálogo.

[ tony ]

| conto um conto |

Do local que escolhera para esperar, conseguiria vê-la.

E quem passasse não deixaria de vê-lo também, um dos poucos socialmente uniformizados num shopping em dia [tarde e noite] de verão. Camisa listrada para um lado, calça riscada para o outro; mais formal, só um tabuleiro de xadrez. Igualmente metódicos, talvez.

Um sorvete entre a mesa e as mãos, e um olhar inconfundível assistia aqueles minutos de vida nas vidas dos outros, todas ali repetindo uma existência qual cada autor dá um tom singular, do contrario seriam apenas outros viventes.

Mas era aquele estereótipo gostoso de [d]escrever: meninas moças com seus celulares e penduricalhos evoluindo a complexa arte da incompreensão feminina, meninos moços aprendendo a fazer todas as poses que aparentam agradar as meninas moças [menos a certa, afinal nessa idade certo e errado nem existe e, salvas exceções, não sabemos o que queremos; depois dessa idade também não, mas isso é assunto pra outro texto], aquele joguinho divertido, entre pessoas doutras idades ali comendo e conversando, conversando e querendo comer, viajando entre seus pensamentos ou pelos pensamentos dos outros ao acessar a internet dali que é ponto grátis.

Lá no final da praça, olhos verdes escondidos em cachos loiros vibravam a alma com seu violão.

A voz rouca e suave, com um delicioso sotaque, atravessava ouvidos e coração entre o murmurar, cantando qualquer amor desses tantos que a gente vive ou acha que vive, arrancando lágrimas dos mais atentos e convidando à reflexão os quase percebidos [Nota: Loira dos olhos verdes, cabelos cacheadissimos e uma feminilidade que fazia muito, muito tempo que não via. Escrever sobre ela qualquer dia]. As palmas emocionadamente tímidas chamaram novamente a atenção para o palco, que fez os olhos passearem por todo o ambiente, até que lembrassem pelo que estavam esperando.

Reconheceu pelo barulho que só o calçado dela fazia naquele piso, sem contar o jeito de andar que se não desbanca modelos, inauguraria um novo conceito de desfilar muito em breve.

Um gingado que só ela tem, como tantas outras singularidades. Dois sorrisos. Um beijo. Lembrou que nunca esquece disso: deusdocéu, como é bom te ver.

– Como vai você? [muita gente faz essa pergunta, poucas sabem qual é o valor da resposta… sobre isso eu também escrevo noutro dia.]

[♫] Amy Whinehouse – The Soul of Unplugged and Electrified