Um tanto quanto.

Já se foram seis meses desde aquele final de semana.

Aquele dia de sol, que o tempo virou e choveu. Que ouviram uma música que dizia mais do que preciso. Que contou o capitulo anterior dessa historia aqui.

E ao passar este tempo, chegaram num mês um tanto quanto… um tanto quanto. Pois uma vez na vida [e você sabe que algumas coisas só acontecem uma vez na vida], junho tinha sido um desencontro.  Um ano depois, era a representação de que desencontros servem para colocar dois caminhos lado a lado.

No segundo ano, era a certeza de que toda estrada que tem duas vias está bem pavimentada para nos levar pra longe.

No terceiro ano, neste terceiro ano, era tanta coisa, mas tanta coisa, que nem todas as lágrimas que os dois choraram de 6 meses pra cá, externas ou não, fariam brotar outra vez um motivo nos desencontros que a vida nos proporciona.

Porque desencontros nem sempre são para encontrarmo-nos com outro que não nós mesmos, leve o tempo que levar. Não existem muitos ou poucos dias, meses ou anos, para mentes e corações que prescindam de aprendizado.

Aliás, me cabe esta extensão literariamente inútil pra dizer: todo tempo é pouco quando um amor recebe pro mesmo molde, dois preenchimentos diferentes, não complementares. Chegara mais um final de semana com sol. Mas frio, muito frio, no clima e em um específico par.

Ela já passou por mais dois relacionamentos. No primeiro foi traída. No segundo, traiu.

Não sabe o que levaram, muito menos o que deixou para eles. Só sabemos que tudo foi fácil, mais do que qualquer um queria que fosse [um dia ela vai rir de ter passado por gente assim].

Entrou nesse mês em inferno astral mode on, porque é seu aniversário ali na bordinha de julho e ela sempre acreditou nisso. Só não acredita por completo que se sente num inferno há um pouco mais do que 10 dias.

Em tudo que ela acredita que mudou é exatamente onde permaneceu igual [em especial a ideia de que pessoas são substituíveis], e tudo aquilo que poderia ser igual, foi mudado radicalmente.

Opa, bom falar deste verbo – acreditar. Eis algo que foi embora naquela chuva.

Ele passou [e parou] na frente do espelho muito mais vezes do que em todos os 21 anos anteriores.

Abria os olhos pra dizer: “poxa, eu estou bem!”. De olhos fechados a alma respondia: “mas deve melhorar”.

Vivia o que tinha, quem tinha, e estava tão absorto no que, que até alguns quem´s passaram mas só passaram, sequer esbarraram para outro desencontro.

Às vezes, caminhava por onde nem mesmo sabia. Tão só, que nem seus pensamentos lhe faziam companhia.

Há alguns dias carregava um nó na garganta maior que o dos últimos tempos. Tinha o motivo na borda dos olhos, mas ainda não dava pra ver. Não até que conectasse data ao[s] sentimento[s] e lembrasse então, com mais força, daquilo que estava pretendendo esquecer. Sem saber, ainda, que não se esquece de alguém querendo esquecer; só quando se termina de lembrar.

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Os celulares não tocavam mais nas horas inusitadas.

Não havia surpresa alguma na rotina. Aliás, a rotina nada mais era que um show mal pago de truques repetitivos para uma platéia que só se importa com a nossa desgraça, pois a felicidade, com a roupa que for, só causa inveja.

O céu tinha qualquer cor, todos os dias eram apenas dias até mesmo nos feriados, os olhos eram apenas olhos, os sorrisos algum delírio, o viver um tédio e as palavras, para ambos, estavam apenas palavras (e talvez sempre fossem nada além). Que cada um usou de uma maneira.

Ele, há alguns meses, colou todas as fotos que achou e reservou a última página de um caderno desencapado e antigo, antes de fechar entre elásticos e uma aliança grafite com tres detalhes dourados que levou 3 meses pra perder a marca que deixara na mão direita, para palavras que não imaginava de onde vinham. Só as tinha, cravadas na mente, gravadas no caderno. Transcrevo:

(…) Para não dizer mais nada. Pois quando chorar sozinha por ter ouvido aquela musica, quando se lembrar da piada mais infame que fazia com as dobras dos seus joelhos (ou qualquer outro ponto que só eu me atrevi a citar), quando tentar repetir sem sucesso o jeito que eu mexia no seu cabelo, eu vou estar.  Quando faltar aquele ombro que era amigo e mais um pouco, aquele olhar que observava, aquela voz que nem sempre dizia, aquele silencio de quem quase sempre fazia, eu vou estar. Quando tentar comparar o incomparável e mensurar o imensurável, quando tentar pedir para que outros sejam o mínimo do que eu parecia ser ao seu lado, eu vou estar.

Morto-vivo em sua memória.

Morto, praquele sentimento que talvez tenha sido a dois, mas hoje é só historia.

Vivo, por mim, pra mim, e mais um pouco do tudo que me fez querer fazer com que você vivesse pra si.

Pena é você ter morrido, mas não pra mim.

Pena é você ter morrido. Mas não pra mim.

Ela tinha uma caixa para todas as coisas.

Naquela caixa vários rascunhos de palavras não mandadas e das recebidas, pois para alguém “não faz sentido ficar com aquilo que já não tinha sido feito para mim, e sim pra ti, chaveirinho”.

E entre um pequeno livro feito à mão, alguns cd´s, bobices antialérgicas e aquele perfume que demorou dois infinitos para sair do seu quarto, achou caída de uma dessas caixas, uma folha (com o tal perfume) do seu último caderno do 2º ano de facul, que tinha uma fórmula química e um bilhete colado em um dos lados, e no outro, um verso que arrancou lágrimas que eram só reação do corpo…

Hmm,

(8) there’s a little truth in between the words we’ve spoken

it’s a little late now to fix the heart that’s broken

please don’t ask me where I’m going

cuz’’ I don’t know, no I don’t know… anymore…

It used to feel like heaven. Used to feel like May… I used to hear those violins playing our strings like a symphony. Now they’ve gone, away… Nobody wants to face the truth, but you won’t believe what love can do: till it happens to you… till it happens to you. (8)

You always be the way you are. I´m will always be the way that I am. So, why don´t we try to understand each other, instead to change ourselves to nothing that matters?? Love you so much, love you until the end of time, and promised myself that all be better, for me, to you, for us… but it’s hard to live this way :(… I don´t know. No, I don´t know anymore…

# como retribuir a surpresa dele?

# pegar bolsa com o paps.

# mandar essa música pro meu amigo.

Ele primeiro riu, pois era estranho aquilo parecer ser de tanto tempo atrás, mesmo dizendo pra si que foi ontem. Depois voltou ao rosto fechado de sempre, pois não queria saber, entender, pensar.

Ela, que nunca consegue segurar as lagrimas, deixou que a folha ganhasse 4 manchas novas antes de voltar para a caixa. Outra vez começava um infinito praquele perfume sair dali. E já que ele não saia, saia ela. Que pegou a blusa de capuz e o player, último presente dele, pra passear.

Ele embrulhou o ‘livro’ num saco dum presente dela, e colocou numa lata com as demais lembranças que pretendia preservar numa distancia segura do coração. Já de bermuda e camisetas, já com a cabeça na bike e “com um dia lindo desses dá pra fotografar bacana”, engolindo a seco o nó da garganta. Partiram.

O destino é travesso, mas para eles era no mínimo filhadaputamente infame.

Pois não se ligaram que estavam indo para o mesmo caminho no qual toparam um dia há três anos atrás, não lembraram do que viveram nos anos seguintes, mas tudo aquilo que o caminho significava estava implícito, por isso não deixavam de fazê-lo, conscientemente ou não.

Até que uma transeunte de capuz e cabeça baixa dá um passo mais pro lado.

Até que alguém que sempre anda sem as mãos, levou uma topada de braço / guidão e no tropeçar da bike, deixou que ela caísse sem cair junto com ela.

Bicicleta pra um lado, mais tres passos para frente. Ele riu pq sempre ri disso, o sonho dele é viver uma videocassetada. Ela foi ver onde que a distração tinha esbarrado desta vez. Não era num desencontro.

Arregalaram os olhos. Ela ficou roxa. Ele abriu o velho sorriso tímido.

– Uia, quaaase. Não tava filmando não, né? Não queria aparecer assim no Faustão…

– Neem, só filmaria se vc tivesse caído. Sacumé, pra dar graça. (um passo à frente)

– Guria, se cuide. Essa distração um dia te prejudica. (um passo dele à frente)

– É, alguém sempre me dizia isso…

– no mínimo era um cara sem noção, pentelho bagarai.

– e até sabia andar de bicicleta, nunca caía desse jeito…

– ráááá… faz tempo, né? [ele chega mais perto]

– hmm… uns seis meses? [ela fica mais vermelha]

– por ai…

Ela mostra a língua e faz a careta que ele sempre, sempre fazia a cara de bobo apaixonado que os homens fazem e poucas mulheres são capazes de perceber (e valorizar).

Ele abre um sorriso, pega com as duas mãos no rosto dela, e dá um beijo na testa. Ela o abraça com toda a força. Ele abre os braços pra ela se aconchegar.

– bãão?

– bããããão. Contigo?

– ahrã.

Aquele silêncio ensurdecedor que vocês conhecem. Olhares de paisagem, sem saber como continuar.

Tantas coisas para eles verem, pensarem, fazerem, viverem… lá estavam outra vez no mesmo lugar, há alguns passos daquele banco de cimento com propaganda de farmácia, mercado e banca de jornal, que ouviu muitos planos, deu risadas junto, ouviu músicas, juras, e guardou lágrimas de um certo casal.

Nem o vento continuava, esperando ansiosamente por outra palavra. Não era preciso. Ou era? Não sabiam.

E é bem provável que a graça seja essa, não saber.

Se ela ainda sente mais frio do que a maioria dos mortais, baixinha e magrela como um chaveiro.

Se ele não consegue parar quieto na frente do computador, balançando na cadeira e mordendo os lábios no ritmo do que tocava nos fones.

Se as bandas que ela ouve lançaram discos novos pra ele baixar primeiro pra ela.

Se a comida que ele gosta, ela já tinha conseguido aprender a fazer.

Se ela já parou de mexer no cabelo freneticamente.

Se ele já parou de não dormir, zumbi predileto.

Se ela ainda chora por qualquer coisa e dorme mais rápido que miojo fica pronto, pandinha inha.

Se ele ainda tenta ser surpreendente dentro da rotina.

Se eles ainda usavam da mesma forma a expressão nós.

Por isso ficaram longos segundos se olhando, até que ele balbuciasse “então vem bike, bikeeee fiufiufiu, iscaiscaisca”, virando-se para pegá-la.

Ela ajeitou os fones e voltou o play, com um o sorriso amarelo que aprendeu a fazer com ele, soltando um “Nos falamos?” / “Claro, ainda sabe onde me achar?” / “Acho que sim.” / Então belebele.

Ela acenou, ele mandou beijos com as duas mãos, já passando do banco deles, pedalando no ritmo que sabe.

O vento voltou, colocou o cabelo dela no lugar e deu um outro tom para o queixo que tremia [e vocês sabem o que acontece quando um queixo treme sem que seja voluntário, né? Pra quem não sabe: a gente chora copiosamente.], e uma lágrima dele pra confundir-se com a coriza que os óculos escuros iam retirar.

Cada um voltou pra sua vida, a tarde era linda. Mas era só mais um dia.  E num dia, aprendem.

Um dia aprendem a não fugirem deles mesmos.

Um dia aprendem a respeitar o valor da história que construíram juntos, ainda que o silêncio, recíproco, seja uma excelente demonstração.

Um dia, num belo dia, vão [re]fazer um desencontro. Com quem, ninguém sabe.

E é bem provável que a graça seja essa, não saber. Até porque, viver não precisa fazer sentido, não o dos outros… pois há sempre um final de semana com sol, ou um outro dia qualquer, pra gente se desencontrar.

||| Acho que agora esgotou, temporariamente, o reservatório de romanticices =P…

Texto dedicado as seguintes músicas e inspirado nos seguintes textos:

[]Nobody wants to face the truth, but you won’t believe what love can do: till it happens to you…” – Till it happens to you, C.B. Rae.

[]Can’t seem to hold you like I want to, so I can feel you in my arms. Nobody’s gonna come and save you, we pulled too many false alarms…” – Slow dancing in a burning Room, John Mayer.

Outro par (quando palavras são apenas palavras, parte dois)|| arquivo dum tzaum de blog.

Sobre o casamento || Momento Espírita