Como não desperdiçar metade da vida na internet

tony

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Completei dia desses 32, e já são 16 anos online. Metade da minha vida online e escrevendo.

Comecei apenas querendo aprender. Insisti para cumprir minhas obrigações e continuei para passar no vestibular. Então eram dois cadernos no offline – um da escola, um particular – mais a ideia de transpor pro online.

Antes mesmo de ser mato, eu já tava aqui capinando.

E a única técnica utilizada era a emoção. Escrever por volume, por desabafo, pra marcar em bits o que não poderia ser removido na vida. Sentir com força tudo e todas as coisas para sentir uma vez só, relembrar apenas quando fosse conveniente, e assim liberar o espaço na mente para o que realmente importava: mudar de vida.

Tzaum.zip.net foi a minha primeira casa online, tanto para blogar quanto para aprender a transformar linhas de códigos em visuais de páginas. Devo todo meu interesse em escrever – hoje gourmetizamente chamado de produção de conteúdo – e a teimosia em gastar os botões F5 e F12 dos teclados para testar e ver funcionando tudo quanto era html, css e php, à escrita.

Começou um pouco depois do berço

Não é apenas um gatilho mental quando digo que já tem metade da vida que escrevo. Escrever começou com a leitura, um pouco adiante do beabá escolar [embora a primeira leitura tenha sido a palavra “Coca-Cola”, numa revista, com 3 anos de idade], e com a minha irmã criando e reforçando toda a minha educação infantil. Pra valer, foi digitando e revisando textos do meu pai, em cartas cheias de formalismo e com palavras rebuscadas que faziam jus aos dois grandes dicionários Aurélio que existiam em casa.

Lá mesmo fui muitas vezes buscar o significado daquilo que lia, até o ponto onde inconscientemente estava todo dia buscando alguma palavra, só pela curiosidade. Nisso, eram 12 pros 14 anos.

Dos 15 em diante, aquele negócio maravilhoso chamado internet, as salas de bate-papo e o MSN Messenger. Sem pular o “você precisa de um e-mail para utilizar o discador”, então vamos lá: [email protected] e pah! O mundo estava na telinha tubular com autofalantes embutidos do Itautec.

Quando pudemos ter internet banda larga em casa, também chegou o período de brigar por uma vaga em universidade. Dentro de casa, um certo descrédito com misto de “você sabe que se não passar na pública, nunca vai poder fazer, certo?” e “você é inteligente o suficiente pra passar”. Na escola, outro misto: o de “vejam lá o que vocês vão fazer da vida” com “façam o ENEM, tentem a faculdade, sigam a trilha”. Na dúvida, escolhi “vou passar e vou fazer tudo que precisar”.

Offline, era reescrever letras de músicas, escrever cartinhas pras minhas paixonites [algumas enviadas, outras não] e ter um semi diário, onde condensava o que achava relevante do que vivia na escola e do ambiente hostil dentro de casa. Online, replicava a ideia de escrever todos os dias. Em miguxês, mas escrevia.

No fim das contas, passar na federal não veio, junto com uma cartinha do PROUNI. E fui orgulhosamente da 1ª geração: de estudantes do programa de educação mais útil deste século até aqui, e de filhos dos Sousa´s que entrou na faculdade.

Em 4 anos de publicidade e propaganda, foram 3 e meio com aulas de redação. E uma passagem tranquila pela disciplina [e pela graduação inteira] porque estava fazendo o que amava. E ainda amo: o blog seguiu firme e forte até 2009 em endereço gratuito, e de 2010 em diante foi para casa própria (tzaum.com), com outra pequena mudança ali pra tonykarlos.com

Produção de conteúdo antes de ser produto

Oito anos e meio dentro de agência e 2 redatores com muito mais experiência me ensinaram mais de 100 formas de vender carros, entre outras centenas de formas de fazer vários tipos de públicos lembrarem de marcas e produtos pontuais.

Não perca as contas: aí já estamos no 13º ano online e escrevendo. Onde tinha que encurtar (publicidade), extravasava na rede (que ainda não era mídia) social: argumentos, conversas e declarações cercadas de [maroon] [/marooon] em 2 comunidades e direto na caixa de depoimentos do Orkut. Milhares de scraps, e 2 namoros online, que rendiam e-mails diários de no minimo 1000 palavras.

E quando resolvi subir o morro sozinho, tinha as palavras me acompanhando

No meio de um burnout, casado e cuidando de duas famílias – a que construí e a de origem, pois a mãe nunca conseguiu se estabelecer financeiramente – optei por trabalhar de forma remota / freelance em 100% do tempo.

E-mails e propostas, contratos e argumentos, centenas, quase milhar de posts nas (agora) mídias sociais, e aqui estamos. Felizes e com mais um texto de +1000 palavras fazendo de conta que nenhuma daquelas regrinhas vendidas nos cursos de produção de conteúdo, existem.

 

Esse negócio de escrever rende.

E nem sempre é com as palavras ditas. Produzir conteúdo é a base dos negócios na internet, de todas as naturezas.

Mesmo os vídeos começam com palavras, que se não são transcritas, permanecem revisadas em nossa mente enquanto a bolinha vermelha pisca na telinha pra qual muitos morrem de timidez em encarar, e outros são encarados por ela desde quando nem olhar sabiam direito.

Direito que é acessível a quem quiser, basta escrever, certo? Certo!

Tal e qual das décadas mais longínquas, há quem se sinta mais guardião da escrita que os demais mortais, e a partir de regras nem sempre muito claras produtizam a ansiedade e timidez alheias, chamando de “oportunidade a partir de um gatilho mental, preenchendo uma lacuna existente no mercado”.

Ainda não vi nenhum manual técnico fazendo sucesso com o grande público… Mas sobram vendedores de ilusões.

5 textos para te animar a escrever (sem fazer você comprar nada)

Não se preocupe: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/03/eps/1554313267_031677.html
O que você precisa construir: https://www.linkedin.com/pulse/autoridade-ou-influ%C3%AAncia-o-que-faz-roda-girar-de-rodrigo-giaffredo/
Que tal pensar melhor no que publicar? https://www.updateordie.com/2019/03/21/isso-eu-nao-vou-publicar/
Como cultivar ideias? https://viverdeblog.com/ideias-inovadoras/
E se o problema para escrever for tempo: https://www.linkedin.com/pulse/voc%C3%AA-n%C3%A3o-tem-tempo-para-nada-te-ensino-em-cinco-como-isso-forastieri/

Contudo, leio conteúdos excelentes cheios de palavras repetidas, erradas e até mesmo mal escritas.

Por que se o meio algumas vezes deixa tudo confuso, nada é mais relevante que uma mensagem que nos impacta. Já de publieditoriais disfarçados de causos e historinhas reais, muitos ambientes online estão saturados.

Qual mensagem impacta você?

A preguiçosamente batida frase de acontecimento improvável + 2 espaços + encheção de linguiça com lição de moral ou historinha de programa de domingo + (finalmente!) o link ou proposta que a pessoa queria realmente vender no fim das contas possui lucratividade duvidosa. Cuidado…

Foco ali no lucratividade: até onde me lembro, likes e comentários não pagam boletos, por mais que gerem visibilidade ímpar, que se reflete no reconhecimento em algumas redes que podem vir a se transformar em negócio.

fonte: https://dribbble.com/crispe

Vejo subcelebridades passando vergonha no crédito e no débito com fotos instagramáveis tão reais quando moeda de 2 reais, escrevendo mensagens filosóficas sobre como é legal ter 6 dígitos de seguimores, mas tão logo venha aquele linkezinho maroto e/ou conteúdo 100% publicitário, aquelas mesmas métricas de vaidade derretem e se revertem em menos de dezena de negócios reais.

Por isso, cuidado com o[s] conto[s] da produção de conteúdo.

Se você chegou até aqui, já podemos concordar que conteúdo é uma ferramenta que sim, chama atenção, é capaz de produzir resultados práticos e prender a atenção de públicos específicos.

Tem um caminhão de negócios digitais e personas de “sucesso” só fundamentados nisso.

E centenas de pessoas dizendo todos os dias nas mídias sociais que se você não fizer isso você não entra na fila do pão das vaidades e dos likes (entre outras validações digitais e reais) em milhar.

 

A produção de conteúdo é o ovo ou a galinha?

Deixo pra você a resposta sobre quem veio primeiro.

Mas posso explicar que as maiores companhias (e marcas pessoais) do mundo o são não porque escreveram textões bacanas desde o seu nascimento e/ou emplacaram virais.

E sim porque se atreveram a cumprir o que prometiam.

É um carro econômico? Tó um Fusca aí.

É uma bebida pra ficar inserida no seu ritual de final de semana em família? Com álcool é (insira a cerveja). Não alcoólica, Coca-Cola (é claro que eu iria ler com 3 anos algo que eu via com relativa frequência no meu mundo).

As maiores empresas de buscas na internet são assim porque vendem o que está nas palavras, e não as palavras.

Ou seja: palavras que não entregam nada são apenas palavras.

Produzir conteúdo cuja substancia é vazia, tem a mesma utilidade que o meu blog lá em 2004: passa o tempo e te treina pro que vai fazer a diferença no público que você quer cativar. Mas vender mesmo, não vende.

Quer vender usando conteúdo? Venda conteúdo.

Seja produto ou serviço, tenha a humildade de olhar pra si e entender o que você realmente vende, depois olhe pro mercado e descubra como a sua concorrência – direta e indireta – faz.

Feito isso, aí sim: revele seu diferencial e use o mínimo de palavras para concentrar o máximo de informação, para depois usar o máximo de palavras para se fazer lembrado, bem quisto e desejado pelo seu público.

A vida costuma funcionar assim:

• escolhemos um modo para ocupar nossos dias e os recheamos de problemas,

• para os quais vamos encontrar soluções pagas que podem vir a gerar outros problemas e outras soluções.

• Você provavelmente vive de fazer alguma solução pra algum problema funcionar,

• e gasta o resultado disso pagando para que outras coisas e pessoas resolvam seus problemas.

 

Ou seja: assim como você e o que consome, o público médio não é muito aí para o que é ou como é o seu produto.

Já pro problema que ele resolve, você conquista até a paixão das pessoas.

Quando (e sempre) que possível, embale as palavras num visual que seja o que a sua concorrência não é, para explicar qual solução sua é mais tchubirubi para aquele problema que pessoa específica tem. Isso é construção de marca.

Palavras sem visual são apenas vaidade disfarçada de proposta de negócio.

Tem algo que humanos odeiam com força: sentirem-se enganados. A influência é algo que a maioria aceita, conscientemente ou não, em graus distintos.

Já dar de cara com um conteúdo balão (bonito e vazio), nanana.

Soluções que são bem vistas, são bem lidas. Lidas e consumidas. Se vai ser com storytelling, com máquinas de vendas, ou com qualquer modelo à venda, é contigo. Mas venda conteúdo.

 

Agora, se a solução que está à venda é você mesmo, de todo o coração: Mande a vaidade à merda antes de pensar que merda é o que você tem pra escrever.

Vaidade é um ótimo combustível. Se disfarça de timidez e não nos deixa escrever direito.

Veste a carapuça do medo e ficamos orgulhosos em escrever “eu tenho medo de colocar minhas palavras por ai e ninguém responder”, sem parar pra pensar que isso é mais constrangedor do que simplesmente escrever o que queremos.

Se é mais fácil se mostrar frágil, quem sabe não seja a sua fragilidade algo a compartilhar?

O não de “ninguém vai me ler”, você já tem e tem com tanta força que não aceita ser lido nem por si próprio.

Coloca o sim de “ao menos eu escrevi” no ar! Se não vem o like, fica o treino. De treino em treino, logo menos você tá brilhando.

Pois não é like que paga a conta, nem as reais, muito menos as mentais.

Mídia social não é terapia coletiva… É apenas um meio de sociabilizar ao qual você jamais está obrigado a qualquer coisa.

Se precisar jogar esse jogo do “é só com conteúdo que eu vou fazer dinheiro”, vem com medo mesmo, e começa do começo.

Todo mundo começou como você. E hoje estão num estágio avançado que faz parecer que é bom, simples, fácil. Provavelmente estão metade pra mais da vida, escrevendo.

 

Você também pode passar metade da vida escrevendo [lembre-se: só se você quiser].

Se você não ama escrever, ou nem precisa, é um problema, certo? Pague para quem pode solucioná-lo pra ti.

Não quer ou não pode pagar, e vai ter que aprender? Aprende, reaprende, escreve pra você até que você se veja nos leitores. Até que você sinta que pode falar por mais alguém.

Falando por mim, a metade aqui escrevendo é bem completa, recheadinha, cheia de palavras como este longo texto. Quando eu comecei, eu só queria aprender.

Toda vez que encaro uma página física ou digital em branco, eu continuo querendo aprender.

E se o que eu verbalizar puder ensinar algo pra alguém [fora o retorno de satisfação que já traz], tou no lucro 🙂