Para construir uma marca de sucesso, seja uma marca de bairro.

A primeira casa que morei em Curitiba era mista: de alvenaria na frente, e de madeira no resto.

Um galpão com duas portas de correr, um pinheiro de 8 metros na frente, e recuo para estacionar pelo menos 3 carros.

A frente era um comércio, e a sequência, o lar. Não chamo de “nos fundos” pois o terreno era enorme, tinha ainda mais: 2 cômodos de tranqueiras [do dono do imóvel, cuja família batia quase um século por ali], um poço, um pé de jabuticaba gigante, pés de limão menores, chuchus crescendo nos muros e mais uma casa, que era alugada para outra pessoa.

Meu pai tinha a empresa no galpão, e no lado da nossa casa, tinha uma mercearia. Daquelas de bairro mesmo, com tudo um pouco que o final dos anos 90 e o começo dos anos 2000 permitiam ter: baleiro com doces, cereais nos pacotes de quilo e à granel, um pouco de leite, pão, frios, e bebidas.


Essa é a minha primeira lembrança de “mercado” em Curitiba. E aposto que você tem a sua lembrança de “negócio do bairro”, seja o das figuras que te criaram, ou os que você visitava com eles.


Neste ambiente líquido e repleto de marcas para ver, viver e consumir em todos os locais que olhamos, como conseguir ser olhado pelas pessoas certas? Comportando-se como um comércio de bairro, o que a partir daqui, chamarei de marca de bairro.

Seja uma marca de bairro: 5 maneiras de gerir seu negócio com escala global e paixão local.

Marcas de bairro possuem consistência, uma entrega bem feita e real, tornam seus clientes a própria personificação da marca, com o olhar do dono criando autenticidade e abraçando as virtudes do tempo.

Como construir uma marca de sucesso: seja consistente como aquela padaria do seu bairro.

Como aquele comércio local que está no seu trajeto: todo dia você passa ali, e todo dia está lá a fachada meio desgastada, com cara de vida, todo dia mudando um pouquinho e aparentemente sem nada diferente.

Marcas que querem sucesso são visíveis em tudo que comunicam. Seja por abraçarem uma cor só, ou seja por ter a logo aplicada em tudo: da capa na página do facebook ao papel que enrola a cesta de pães; No avental dos colaboradores e na fachada, enfim, em tudo que o cliente ver, também vai enxergar você, sua marca, sua comunicação.

Consistência é dar um sabor pra sua marca. Marcas de bairro são facilmente lembradas por uma combinação imperdível, um carro-chefe de vendas. Converse com qualquer pessoa que roda a cidade à trabalho, e ela te dará um endereço para uma experiência gastronômica especial. Você tem um local assim guardado no coração também.

É o tipo de recurso que você pode e deve copiar para o seu produto ou serviço. Esse sabor é construído com o máximo de associações lineares que for capaz de colocar na rua: a mesma forma de escrever, atender e comunicar; Uma só mensagem – uma só promessa – em tudo que seu público precisa ver.

E assim como existe aquele comércio local no seu trajeto, você construirá um caminho na mente do seu público para toda vez que lembrarem do que você faz, respondam com o seu nome, com a experiência que você entrega.

Entrega relevante é o que mais as marcas de bairro fazem.

Deixo o critério subjetivo do gosto todo para os seus pensamentos. Muitas vezes pensamos com a racionalidade da conta na ponta do lápis e a semi-racionalidade condicionada pela repetição a partir da propaganda, e escolhemos serviços de varejo de larga escala [supermercados, farmácias], produtos multinacionais, etc.

Só que o bairro entrega o que nenhuma escala é capaz de dar: pessoalidade.

quem nunca foi buscar aquele item que faltou numa receita, ou aquela refeição que “bateu o desejo só agora”, que atire a primeira pedra

Esqueça aquela assepsia semi robótica de cafeterias famosas ou a farra dos emojis e cartinhas à mão dos serviços financeiros.

Pessoalidade é desenhar uma experiência que seja única para o seu cliente: se serviço, um tempero especial, a atenção sincera, dar mais do que as pessoas esperam pelo viés da qualidade, e não da quantidade. Se produto, uma relação investimento-benefício improvável de questionar.

É estar presente para as situações de emergência e ser o caminho mais próximo para o que o seu público precisa.

Ser útil de fato para aquele problema que o cliente está resolvendo no momento – e escolheu você como meio de resolução.

Ser inspirador, a ponto de parecer humano, pessoal, “feito para” aquela pessoa. E se você ganhar aquela pessoa, você tem mais que um cliente.

Você tem a sua marca andando por aí.

Os limites do “seu bairro” são expandidos, pois clientes bem atendidos recomendam, avisam, dão detalhes, vestem a sua camisa.

Criam o hábito de consumir você sempre, graças à habituação que criou ao ser relevante para a vida delas.

E tornam-se fãs! Levam amigos e parentes, compartilham a presença deles contigo, e esperam que você exista “para sempre”, vão chorar sua mudança ou partida.

Transformam-se na propaganda mais lucrativa e menos onerosa. Fazem com que você sinta-se ainda mais dono.

Pois marcas de bairro têm o olhar do dono.

Atenção: olhar do dono não é visão de dono.

Olhar do dono é transformar em mantra a ideia de “atender como gosto de ser atendido; receber como gosto de ser recebido; valorizar como gosto de ser tratado; me sentir pagando menos por algo de muito valor, e pagando o justo por um momento ímpar no meu dia / na minha vida”.

Visão de dono é aquela coisa ultrapassada de escravizar o tempo de parceiros e colaboradores, como se seu negócio fosse para o umbigo.

Olhar do dono é por a mão na massa ou fazer com que tudo pareça ter a sua mão, é tornar a sua marca autêntica. É a barriga no balcão, virtual ou não, para ser empático com os clientes.

É construir um diálogo que dá gosto de compartilhar, ser transparente a ponto de não precisar explicar, é evoluir seu produto ou serviço e só ter mais gente “chegando junto”.

É ser daqueles que sabem o que fazem, e só falam depois de fazer. Até porque já entenderam a força que o tempo traz para o seu negócio.

 

Marcas de bairro são boas porque são feitas também pelo tempo.

Aceita que demora.

Aceita que não vai ser 100% como imaginou.

Aceita que vai dar trabalho, muito trabalho.

Aceita que você vai descobrir o seu público certo ao caminhar, não no post it.

Só o tempo constrói a tradição.

Os laços com clientes.

A visibilidade física e mental em cada uma das pessoas.

A base de consumidores que garante o pão quentinho, e que serve como farol para buscar mais deles.

A percepção de valor perante a concorrência.

E a verdade da sua promessa – a força da qualidade da sua entrega.

Você é uma cidade. E ter/ser uma marca de bairro é colocar um pedacinho seu para ser lembrando por todo mundo que passar na rua do seu projeto.

Se você está dentro de uma grande marca, pensar nela como se fosse de bairro é um caminho de reconexão. Branding costuma ocupar os dias com metas e métricas, números e resultados.

Mas, em qualquer horário do dia, o que o seu cliente quer é ter o problema resolvido de um jeito que ele não pensava, para o bem. O que muita gente quer e ainda não sabe é que precisa do que a sua empresa já entrega.

Pra você, que está construindo: reserve alguns momentos para ir até as suas marcas de bairro prediletas, e coloque uma lente no seu olhar.

Repare nos detalhes. Em como a unidade daquele local está construída [cores, símbolos, materiais de comunicação, o perfil das pessoas que estão ali consumindo].

Como o olhar e a entrega estão dados – do olho e mão dos donos até você conseguir ter o “problema que foi lá resolver” atendido, e como esse atendimento pode ser classificado.

Junte essas ideias no meio que for mais confortável, e veja o que se aplica para o que você vai por na rua.

Agora, sim: compare com que marcas gigantes que você admira, faz; Encontre o meio termo entre a gigante e o bairro, escolha quais ferramentas vão lhe permitir alcançar o que você quer, e não esqueça de:

[] aceitar que leva tempo

[] usar o tempo com racionalidade, quebrando todos as etapas em partes executáveis dia após dia

[] e, assim como você deseja ser escolhido, escolha parceiros que te auxiliem nesta jornada.

Coloque a casa na mente das pessoas dentro do seu bairro. E seja a marca da cabeça e do coração delas. Ainda que não tão consumidas, marcas de bairro existem – e sobrevivem – em número muito maior que as 100 marcas mais valiosas do planeta.

Eu sou o Tony, apaixonado por branding desde um pouco depois que saí daquela casa ao lado de uma mercearia. E tudo que comunica, eu faço. Vamos conversar?

Algumas imagens de: https://www.facebook.com/groups/417557358409468/photos/