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@tonykarlos

De onde vim e o que escolhi

Quando você sai um pouco antes do zero, as opções são menores e mais curtas.

As minhas eram duas: deixar a cultura me levar ou não ser conduzido.

Eu escolhi dar um passo adiante e não ser conduzido, mas sim quem conduz (como diz o lema no brasão de São Paulo, terra da minha família). Escolhi viver fazendo da necessidade, um novo conjunto de convicções.

Nasci no oeste do Paraná. Cresci em (quase todos os) quartos mofados.

Era o que cabia no orçamento da família, e eu entendia essa realidade, mas não aceitava ela como compromisso ou destino do meu futuro.

Dentro de mim, ainda sem palavras ou explicações, sentia que existia uma diferença grande entre entender uma circunstância e se conformar com ela, e que aquilo tudo era para me educar, não para me prender.

No meio de tanta escassez, existia até um computador. Ele e outros, que não eram meus

Comecei em 2004. Disso até 2011, minhas ferramentas de trabalho não eram minhas.

Computadores (de 1998) da família, depois um que montei com peças sobressalentes das máquinas antigas da agência onde trabalhava. Mesa e cadeira que sobraram. Um vasinho, um copo, os cacarequinhos que sobram na casa de quem não tem muito para sobrar ou são usos criativos do que se consumia.

Esqueça a tristeza, foca na base

Já chegou até aqui? Não fique com dó.

Fique com a memória: O que eu tenho e como vendo hoje foi construído sem atalho.

Não tem herança, não tem rede de proteção, não tem sobrenome.

Tem vontade, amor e educação de quem me criou, e várias ideias que foram tomando forma. Comecei assim.

A primeira lembrança que tenho de fazer algo com as mãos é caligrafia, com o olhar atento da minha irmã mais velha.

No meio, fazer móveis com caixas de fósforo e papel, já brincando não de “casinha”, mas sim de “montá-las”.

Depois, no ensino fundamental, eu sentava com cola e palitos de sorvete (comprados com muito custo) para fazer cestinhos e vasinhos. Não passei do porta-canetas, mas o gosto de construir alguma coisa já estava ali.

A escolha que não parecia escolha

Em 2004, com poucas opções na mesa, amei de cara uma ideia e apostei tudo nela.

Publicidade e Propaganda na UFPR, o vestibular mais concorrido da história da universidade naquele momento. Sorte que era também ano do primeiro Prouni da história.

Faltaram 3 respostas certas na Federal. Viraram o primeiro lugar em qualquer particular de Curitiba.

O que não foi sorte

O resultado de anotar o que queria desde os 14 anos e acompanhar (com a cabeça e maturidade de quem ainda tava indo pros 18 anos) o plano ao longo do tempo.

De contracapas de cadernos escolares a agendas que sobravam dos adultos de casa, passando pelos cadernos universitários, sempre teve um plano e um objetivo.

Ser um pouco mais sério que a média e levar isso a sério, acabou que deu boa :)…

Confiança, pra mim, nunca foi um conceito fechado. Sempre foi um sentimento. O sentimento de quem se viu sem tantas opções, amou uma ideia e apostou tudo nela. Depois do susto inicial, virou a vida como é desde então.

Um trauma com (res)significado

Todo mundo tem um trauma (lembrando: é coisa boa, sinal de que tem uma vida rolando aí). O meu é com conformismo.

Eu entendia, mas não aceitava que precisávamos de casas incompatíveis com o nosso orçamento familiar, e que a sobra de espaço implicava em falta de várias coisas no dia a dia. E que ficava implícito dormir em um quarto mofado.

Entendia, mas não aceitava que o chefe da família cantava com tom de mágoa que ‘quem sabe faz a hora e não espera acontecer’, mas cobrava dos filhos a responsabilidade financeira de manter o que ele mesmo não conseguia segurar.

Poderia ter seguido todos os exemplos, mas plantei uma obsessão saudável: nunca mais depender de circunstâncias que eu não escolhi. E jamais não me responsabilizar pelo que controlo.

Poderia ser ressentimento, mas virou combustível. Uma diferença que se materializa em excelência, não da auto elogiável. Mas da que faz com que eu nunca tivesse um dia sem trabalhar desde então.

E como nada veio de graça ou de mão beijada, há uma paz em sempre fazer um pouco mais.

Ralar mais que a média do meu entorno pra ter o básico, tirar força sei lá de onde, e não recuar um momento sequer do compromisso de excelência, deixa suas marcas.

Construir todo dia essa excelência mesmo quando ainda não pagava bem.

Pois quando você sai um pouco antes do zero, as opções são menores e mais curtas.

Escolher conduzir foi sempre lembrar, nunca esquecer que dava pra usar tudo como vantagem.

O que eu fiz com isso é o que lastreia meus anos de faculdade e agência. E é história para outro post.

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